sábado, 9 de abril de 2011

Narrativa Aikewara: Kwarahy, Sahy, Sahy-Tatawai e o fogo Aikewára

Há muito tempo, no meio da floresta, na época em que nós, Aikewára ainda éramos brabos, vivia um indiozinho malinador. Por mais que seus pais o alertassem sobre os perigos da vida, ele teimava em não acreditar na sabedoria de nosso povo.
Naquela época, o mundo era mais frio e mais escuro, ainda não existiam Kwarahy, Sahy, Sahy-Tatawai e o vento.
Os índios Aikewára brabos também eram conhecedores de muitos segredos do Universo. O indiozinho era muito curioso e vivia perguntando sobre tudo. Um dia, ele viu uma cabaça fechada e quis saber o que havia lá dentro. Os mais antigos lhe disseram que o índio que mexesse naquela cabaça sagrada seria duramente castigado. Parece que essas palavras aumentaram ainda mais o desejo do jovem índio.
Alguns dias se passaram e ele não tirava da cabeça o desejo de abrir a cabaça. Até que um dia...
Todos estavam ocupados e o pequeno índio ficou sozinho diante da cabaça. Nervoso, o indiozinho malinador sentiu um frio na barriga. Suas mãos suavam... “Será duramente castigado...”
De uma vez só ele abriu a cabaça. De dentro saíram o fogo e o vento com tanta violência, que mataram o indiozinho. O vento se soltou e se espalhou pelo Universo. Já o fogo... Bem, o fogo também se espalhou no céu. Durante o dia, transformou-se em Kwarahy e ajudou a melhorar nossas roças.

À noite, ele se transformou em Sahy, só que nós dormíamos nesse período e Sahy ficava muito sozinho. Então, o fogo resolveu lhe dar um filho e criou Sahy-Tatawai. Ele não fica o tempo todo do lado do pai, mas podemos vê-los juntos no início da noite e no final da madrugada, brilhando no céu.

A história Kwarahy, Sahy, Sahy-Tatawai e o fogo Suruí me foi narrada por Arihêra Suruí. Era noite, mas o céu estava coberto de nuvens. Não pudemos ver nem a Lua nem as estrelas e os Suruí se ressentiam muito disso. Com a convivência entre eles, aprendi que não gostavam de contar histórias que envolvessem as estrelas, durante o dia. Ficavam incomodados de não poder mostrá-las, por isso as narrativas deveriam ser contadas preferencialmente à noite.

Ivânia dos Santos Neves

2 comentários:

  1. Professora, tenho certeza de que este blog já é mais um passo bem sucessido seu e entre rimas, remos e ramos, vamos junto com voces aprender e apreender muito mais sobre a cultura indígena. Sempre que falamos em índios de um modo geral, esquecemos de mencionar a riqueza do universo literário(a não ser pelas lendas folclóricas já tão "batidas") que eles possuem. Amei a história e poderia integrar um livrinho digital ou impresso a partir deste blog, com ilustrações feitas pelas crianças suruís - não é uma boa?!
    Ah, amei o título entre histórias, castanhas e estrelas - me fez sentir os pés descalços e as mãos tocando o céu! Bárbara Feio.

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